Os pais em processo de divórcio estão a sofrer. Ou porque se sentem culpados ou porque se sentem rejeitados. Não poucas vezes caem num estado depressivo. Têm de lidar simultaneamente com sentimentos contraditórios que vão da dúvida à dor, da saudade à inquietação, entre outros, agravando-se a dificuldade de diálogo. Esta má comunicação reflecte-se muitas vezes no relacionamento com as crianças, agravando vezes demais o distanciamento entre pais e filhos.
Será que alguém no seu perfeito juízo tem a intenção de judicializar uma conflito do foro privado? Será o Tribunal a situação ideal para resolver situações do foro pessoal?
Será que em consciência a família pretende com a intrusão do Tribunal, na pessoa de um douto Juiz quantas vezes sem experiência de vida, entregar o controlo e as decisões do seu futuro da sua vida?
Um conflito que pertence aos adultos em que as crianças não pretendem mais do manter as suas as rotinas, manter o pai e a mãe atentos com uma boa noção dos seus deveres, mantendo boas relações com os avós, primos e com toda a família para um crescimento harmonioso, feliz e sem sofrimento desnecessário pois, como já citado, embora ninguém possa retirar à criança o sofrimento inerente à separação dos pais “o grande interesse da criança não é perder nenhum dos seus pais” (Saldanha, 2007).
As responsabilidades parentais implicam a co-responsabilização dos progenitores em que estão envolvidos banhos, beijos, noites mal dormidas, febres, gargalhadas e todos os momentos irrepetíveis do crescimento das crianças. Os pais não devem perde-los e as crianças querem tê-los por perto.
No Tribunal não está presente esta realidade. Apenas ambos, pai e mãe, conhecem esta realidade. No Tribunal há lugar para os outros – advogados e juiz – controlarem a sua vida e a vida de crianças que não conhecem.
O aparelho judiciário “modelo racional, formalista, hierarquizado como todos sabemos, enorme duração de prazos, complexidade de procedimentos legais... não é de todo adequado aos tempos, aos dias, da vida de uma criança” (Saldanha, 2010).
E ainda, quase sempre, a ausência de resposta atempada dos Tribunais contribui paradoxalmente para agudização de problemas de relacionamento entre pais e filhos.
Esta intrusão do tribunal ainda tem a agravante de que a família o enfrenta com desconhecimento relativamente aos procedimentos e seus significados, sendo esta uma vivência provoca grande stress num processo em que as alegações (que ficam para sempre escritas) obrigam a família a interagir num processo de auto-flagelação em que nenhum dos dois ex-cônjuge o pode ganhar, ficando todos a perder – no sentido em que a sua vida íntima foi exposta publicamente de um modo que pode ser enormemente destruidora.